Como passei a amar a mim mesmo?


 Eu lembro nitidamente da época em que eu não me amava. Era um sentimento horrível, eu tinha que esconder a mim mesmo e o meu corpo para que ninguém visse o quão imperfeito eu era.
 Já foram muitas as vezes em que eu fiquei sozinho sem absolutamente ninguém que estendesse a mão para me ajudar. Também, se estendessem eu recusaria, pois sou teimoso demais para admitir que eu precisaria de ajuda. Não gosto da ajuda dos outros, pois eu não gosto de me sentir fraco sempre... Isso doía, doía muito. Eu apenas precisava que alguém me falasse o quão bom eu era.
 Nunca cheguei a me cortar por causa disso, pois não entendia muito bem o porquê de fazer algo assim... Agora eu entendo. Mas, eu chorava muito, Mesmo magro, fazendo academia e tals, eu me sentia obeso. E quando eu falava isso para alguém, esse alguém ria de mim e me mandava ir a merda e falava que era tudo bobagem, frescura. Quanto mais as pessoas agiam assim comigo mais eu odiava o ser humano.
 Cheguei ao ponto de colocar fitas nos meus peitos, pois eles eram (são) saltados e as pessoas me zuavam por isso (minha melhor amiga já chegou a me zuar falando que iria comprar um sutiã pra mim de aniversário. Doeu muito ouvir isso de alguém que eu gostava tanto...). Todos os dias, absolutamente todos, eu ia para o banheiro e me pesava. Quando entrei na academia estava com 72 quilos, depois, cheguei a ficar com 60 e mesmo assim me achava obeso, me sentia obeso. Odiava comer qualquer coisinha. Minha mãe ficou muito preocupada comigo e já quis me levar ao médico por isso, mas eu não deixava, não achava que era algo muito preocupante.
 Eu ia para a academia e me olhava nos espelhos e até me sentia mais bonito. Eu ficava feliz com isso, mas logo parei de olhar para o meu corpo e olhei para o meu rosto e vi não havia nenhum sorriso lá. Eu escondia meus peitos atrás de fitas isolantes, mas mesmo assim ainda dava para perceber... perceber as imperfeições. Voltava para casa decepcionado com tudo.
 Tudo piorou no mês de novembro de 2017. Eu estava na academia e... eu me senti muito mal. Eu não sabia o que era. Eu saí da academia e fui andar na orla (ou laguna) de Araruama (onde eu moro). Eu estava muito mal, mas por que? Coloquei uma música para trocar e do nada eu senti uma vontade avassaladora de chorar. Eu não queria, tinha muitas pessoas por perto e não gostava de chorar perto dos outros. Minhas vozes me disseram que eu não podia chorar naquele momento, eu tinha que chegar em casa o mais rápido possível. Atravessei ruas, pistas, passei por pessoas, lugares movimentados, sempre de cabeça baixa para que ninguém visse os meus olhos. Estava perto de casa, e quando eu finalmente toquei no portão do condomínio eu desabei. Não parava de chorar, nunca chorei tanto em toda a minha vida. Fiquei na varanda para que ninguém me visse e enxuguei as lágrimas. depois subi e entrei em casa. Chorei ainda mais e ainda me perguntava "por que eu estou chorando?". Minha mãe estava em casa, tomando banho para sair. Nem sequer olhei para ela, quando ela saiu do banho, eu entrei no banheiro e me desmanchei inteiro a chorar. Fiquei uma hora aproximadamente chorando no banheiro. Tomei um banho quente e depois que saí voltei a chorar. Mais tarde minha mãe falou sobre marcar a missa do meu irmão. Finalmente havia caído a ficha... Eu estava chorando sem saber que aquele dia foi o dia em que meu irmão se enforcou (em 2016). Não estudava signos havia tempos, mas pensei que aquele dia estivesse, de alguma forma, influenciando nas minhas emoções. Eu nunca esqueci essa crise, foi a pior de todas. A dor foi enorme ainda depois descobrir o porquê da minha tristeza repentina.
 Eu perdi muitas pessoas que eu amava ao longo da minha vida e muito jovem. Como uma criança poderia aguentar tantas surras da vida? Até hoje eu não sei como aguento em pé, como consigo rir e sorrir, como consigo amar. A vontade de morrer é muito grande, mas ainda há uma pessoa a qual eu ainda tenho que lutar por.
 Essa crise acabou com todas as chances que eu tinha de aumentar minha auto-estima e o meu amor próprio. Eu não aguentava ver tantas merdas acontecendo. Como focar em mim se tinha outros que me prendiam? Além disso, eu me importava demais com o que as pessoas pensavam de mim. Tentava ser o mais "normal" possível, mas não dava. É o ditado: "Ser normal hoje em dia é um atestado de insanidade."
 Eu sempre fui muito fascinado em bruxaria e tinha (tenho) vários livros de bruxaria em casa. Um desses livros me ajudou na minha caminhada rumo ao amor próprio, Garotas Selvagens: O Caminho da Deusa Jovem, de Patricia Monaghan. O livro tem como intuito ensinar sobre a Garota Selvagem, uma manifestação, um outro eu que, "como as selvas naturais, segue suas próprias leis". Indico esse livro para pessoas que estão começando no caminho da bruxaria e, principalmente, feministas, pois fala muito sobre o poder da mulher, sua força, suas raízes, envolta de contos e histórias que explicam a criação de tudo que existe pelas mãos da grandes deusas antigas.

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 Mas, o que um livro de bruxaria poderia ajudar para alguém que busca o amor próprio? Simples, na página 103 do livro, nós aprendemos sobre magias verbais, sendo elas: O encantamento e a maldição. O livro não ensina nada sobre a criação de maldições por razões óbvias, porém, ensina como criar um encantamento de cura. Se você é como eu, poeta, escritor e amante das palavras, esse exercício é perfeito para você. O sistema é o seguinte:



Possa a se tornar b
Possa b se tornar c
Possa c se tornar d
Possa d se tornar e
Possa e se tornar...
Possa... se tornar a.

 É óbvio que eu criei um encantamento no momento em que lia isso. Vou colocá-lo abaixo para caso queiram usá-los, mas sugiro que criem o seu próprio, pois tem que ser uma manifestação daquilo que você está sentindo.

Possa meu corpo se tornar belo.
Possa a beleza se tornar possível.
Possa o possível se tornar certo.
Possa a certeza se tornar encantadora.
Possa o encantador se tornar o meu corpo.

 Ainda há um exemplo de encantamento de cura que a própria autora disponibilizou no livro. Este é, de acordo com Patricia, um encantamento de beleza pessoal.

"Meu corpo é uma rosa; possa ela desabrochar.
Meu desabrochar é frágil como uma flor
que brilha em uma hora iluminada pelo sol
e murcha quando a luz do sol se vai.

Meu espírito é o sol; possa ele brilhar.
Meu brilho é a fragrância da rosa
que nos conta tudo o que a flor sabe
e mostra sua beleza mesmo para o cego.

Minha beleza é minha; possa eu conhecê-la.
Minha beleza é a rosa no interior de minha juventude.
Minha beleza é a verdade cor-de-rosa do meu corpo
Minha beleza é para todos; possa eu mostrá-la."

 A autora deixa bem claro que não é necessário usar rimas e que, se quiser, pode variar o tamanho da linha e a estrutura da sentença, desde que mantenha a configuração intacta. Ela diz também, que você pode criar um encantamento de cura para qualquer fim: Atrair um amor, tornar-se mais feliz, aumentar a saúde e a força, passar numa prova, etc. A regra mais importante: Esteja certo de pedir aquilo que realmente deseja. "Se não acredita que seja capaz de ser amada e atrair um namorado bonito, o tiro sairá pela culatra. Uma vez que não se sinta merecedora do amor, poderá se isolar, tornar-se possessiva ou encontrar maneiras para provar a si mesma que está certa. Dessa forma é muito melhor trabalhar rumo à cura de seu próprio senso de inadequação do que invocar um encantamento sobre os outros."
 A autora também diz: "Em vez de enfeitiçar outras pessoas, trabalhe você magicamente. [..] Cure você mesma de quaisquer mágoas anteriores ou de carência de autoconfiança e a luz que emanar de você atrairá a pessoa certa."
 Depois de ler esse livro, passei a ler os outros livros que estavam guardados na minha gaveta. Percebi o quão bom era ter nascido neste mundo mágico, pois a bruxaria não te ajuda apenas a se conectar com a natureza, mas também, a se conectar consigo mesmo, pois nós fazemos parte da natureza e se eu amo a natureza, então eu tenho que me amar também.
 A partir daí eu passei a jogar toda a minha dor fora. Senti vontade de gritar, de extravasar, de mostrar que eu finalmente estava fora da minha gaiola e que minhas correntes estavam quebradas. A bruxaria me ajudou a libertar a minha alma. Me ajudou a entender o amor, me ensinou que não importa a sua religião (cristianismo, ateísmo, agnosticismo, wicca, candomblé, espiritismo, quimbanda, umbanda, xintoísmo, politeísmo...), sua orientação sexual (homossexual, heterossexual, lésbica, bissexual, pansexual, demisexual, polissexual...), seu gênero (transexual, homem, mulher, não-binário, gênero fluido...), NÃO IMPORTA! O amor é um dom, a empatia é um dom e todos devemos desenvolvê-los. Eu amo tudo e todos. Claro, tenho meus deslizes e fico praguejando pelas costas dos outros, mas aos poucos estou melhorando isso. Sou um ser humano, é claro que vou cometer erros, mas o erro que eu nunca, nunca, NUNCA mais vou cometer em toda a minha vida novamente é o de não amar a mim mesmo.

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